ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA PROFERIDA NA ENTRONIZAÇÃO DE SÓCIOS HONORÁRIOS DA CONFRARIA DO VELHOTE
Esta sessão, designada de III Capítulo desta Confraria, teve lugar no renovado Cine Eduardo Brazão, de Valadares, no dia 7 de Julho de 2007.
Coube ao signatário, como novo confrade entronizado neste dia, proferir a “Oração de Sapiência” que aqui se reproduz.
Após os cumprimentos da praxe, com citação de várias personalidades, seguiu-se a obra, que versava:
FANTASIA SOBRE A ORIGEM DO “VELHOTE”
Nem testemunhos, nem provas,
das extraordinárias novas
que tenho para vos dar.
Apenas o meu falar
de guia vos vai servir,
e quando eu terminar
podereis, sim, concluir
que acabastes de escutar
verdades sem iludir.
Mas vendo o assunto a preceito
também tendes o direito
de julgar, sem presunção,
que uma tal dissertação
é de facto e em teoria
nada mais que fantasia.
Feita esta introdução de esclarecimento, sinto-me mais tranquilo e vós estareis, certamente, mais à vontade para aplaudir ou reprovar. Aceitarei, de bom grado, o vosso juízo. Afinal, estamos aqui para conhecer a origem da palavra “velhote” aplicada a este característico doce regional, nado e criado neste rincão de Valadares. Já sabemos que a descendência do nosso “velhote” emigrou para outras terras, para gáudio de outras gentes. Mas o que, também, queremos saber é quem foi o obreiro que lhe deu o ser, porque o seu nome será gravado nos anais da história da gastronomia universal; sim universal porque, quem sabe daqui por quantos anos, ele será servido à mesa de todas as monarquias e repúblicas mundiais como companheiro inseparável desse néctar divinal que é o nosso Vinho do Porto.
E, como ides ouvir,
meus esforços não poupei
para poder descobrir,
em termos de boa lei,
quando é que se viu surgir
o “velhote”. E também sei
como foi que se inventou
e quem foi que o baptizou !
Ora vamos lá à história.
Só é possível saber o passado real do que quer que seja quando existem documentos a atestar a veracidade dos factos, embora, por vezes, se aceite a transmissão oral que passa de gerações em gerações. Todavia, esta última não é de todo fidedigna, mas na falta de melhor, baseei a minha esperança na hipótese de conhecer o que os antepassados de cada um pudessem ter dito acerca da evolução desta terra, dos costumes de antanho, da sua gastronomia, e de, eventualmente, lhes ter sido transmitida alguma coisa acerca deste pão doce, tão importante e tão notável que justificou a criação desta Confraria.
Vou dar-vos conta, sucintamente, da minha Via-Sacra e do seu resultado.
Devo dizer-vos que nesta Vila de Valadares percorri, por muitos dias e com todo o afã, todos os seus lugares.
Comecei pela Chamorra e segui até ao Paço,
nada de novo senti, a não ser algum cansaço;
fui depois, em alvoroço, até à Aldeia,
Mas do nada eu recebi uma mão cheia;
subi então ao Penedo, lá no alto,
também nada, e regressei sem sobressalto;
fui ao Largo dos Monteiros e passei às Castanheiras,
ouvi coisas muito “giras” e versões mui passageiras;
dei um salto até Eirós e pulei a Gramoinhos,
nada achei ao deambular por todos estes caminhos;
fui depois para Sameiros, para o Crasto e p’ra Estação
e depois de muito ouvir eu só senti a frustração;
a seguir ao Campolinho, fui descendo até à Igreja,
e apesar de linda história, nada tive que se veja !
passei a Valadarinhos para chegar a Medeiros,
e senti que procurava uma agulha entre palheiros;
também andei em Penouços e mesmo em Vila Chã, passando
no Outão,
e julguei ter descoberto o tal segredo, mas foi somente outra
ilusão;
faltava-me o Tartumil e mais a Bela,
mas dos dois nada colhi, nem bagatela;
e por fim, já no termo desta andança,
bem pequena era já a minha esp’rança.
Fui portanto à Marinha, depois à Praia.
Da primeira, fantasia que se espraia
entre ditos que não são nada concretos;
da segunda, só espaços bem desertos.
Sempre esperei – mas em vão ! – ouvir mais alguma coisa do que: (mulher de 60 anos) ah! o “velhote”, o pão doce do César padeiro… então não lembro… deixou de fabricar-se por uns tempos e agora apareceu de novo… e continua a ser bom ! Onde começou ?… ah isso não sei ! porque se chama “velhote” ? …eu sei lá… já a minha mãe e… até a minha avó… sempre chamaram “velhote” a esse doce !
Ou, os mais fantasistas, arriscavam: (antigo lavrador, reformado) bom, a certeza não tenho mas parece que começou a fabricar-se com as festas do Senhor dos Aflitos que têm lugar no primeiro domingo de Julho. Até porque o meu avô dizia à minha avó, quando ela ia assistir à missa do domingo dessa festa: (imitando a voz rouca do avô) ó Ana, não te esqueças de ir comprar o “velhote” para a nossa sobremesa!
Eu era miúdo mas lembro-me bem disso ! A minha avó dizia que era um padeiro, já de cabelos brancos, que tinha uma padaria ali à beira da igreja, que o fabricava só durante as festas. Como se chamava o padeiro ? Ah, isso não sei !
Até tive palpites de datas: (proprietário de loja, com mais de 70 anos) olhe que isso apareceu logo depois da implantação da República, mas um outro dizia: (compadre do anterior que estava de passagem na loja) o doce já existia no tempo do Rei D. Carlos porque a minha mãe dizia que a avó dela contava que um criado do Rei, com família em Valadares, havia levado o doce para a corte e a Rainha D. Amélia, vendo-o, logo o quis provar e gostou tanto que o mandava reservar sempre que vinha para o Norte do país.
Estes os testemunhos que fui colhendo por todo o lado, com mais ou menos adjectivação, com algumas sugestões, mas certezas ou provas, nada de nada.
Ninguém sabia quando nascera este doce, nem quem lhe dera o nome.
Senti uma enorme frustração. Tanto trabalho para nada ! Bom, pelo menos tentei !
A minha missão estava terminada e quis deixar na praia todo o meu desalento.
Fiquei no areal olhando o mar,
sereno e azulinho de encantar.
Não tinha ali ninguém com quem falar,
mas quedei-me, absorto, a meditar.
Uma brisa trazia-me a poesia
espalhando as ondinhas praia fora.
Ao fundo o rubro Sol se recolhia
no reino de Neptuno, sem demora !
Vinha ao longe a penumbra apaziguar
a mágoa da incerteza recebida,
quando alguém, acabando de chegar,
me saudava, a sorrir, descontraída.
Era uma senhora linda !... olhos azuis faiscantes ! o cabelo, cor de ouro, solto ao vento ! O seu rosto veludínio, com sorriso permanente, espelhava juventude. Uma capa prateada a cobrir-lhe um vestido azul de céu.
E antes que eu pudesse falar já ela me interpelava, com sua voz melodiosa: (a jovem senhora) ó jovem desiludido, eu sei bem porque aqui estás…
De pronto a interrompi: chamas-me jovem, mas tu vês é muito mal ! Fica a saber que p’ra um cento já me faltam menos de vinte anos.
E logo ela: mas que são mesmo cem anos, em termos de Universo ? Serão apenas minutos, e poucos, por isso te chamo jovem deste espaço sideral.
Adiante, acrescentei: como podes tu saber o que ando a procurar, se eu não o disse a ninguém ?!!! Tentas adivinhar… mas saber, não sabes, não! Mas, agora, vais deixar-me perguntar: quem és tu, e que fazes tão sozinha, aqui, neste lugar ?
Eu sou a Fada dos sonhos que aqui vim p’ra te ajudar!
Fiquei em silêncio uns segundos a fitar aquela imagem, pensando que era alguém algo demente por ali a vaguear.
Eu sei o que estás a pensar, disse ela calmamente. Não sou doida fugidia. Tenho pena que não creias que ainda há Fadas benfazejas !
Tu procuras saber a origem desse pão doce a que chamais de “velhote” e quando é que ele nasceu e quem foi que o criou, não é isto meu amigo ?
Como vês, eu sou mesmo uma Fada que te lê o pensamento e até sei que vais ingressar na Confraria do Velhote, não é mesmo ? Acredita, e volto a repetir, que estou aqui para te ajudar.
Eu acompanho-te desde que nasceste. Todos os sonhos lindos que já tiveste fui eu que os pus no teu sono. O sonho faz parte da vida de cada um e não te esqueças do teu poeta Gedeão que dizia, com verdade:
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança !
Se a humanidade não pudesse sonhar como poderia criar e dar forma aos seus objectivos ? Se não pudesse sonhar, como poderia amar ? Se não sonhasse deveras como suportaria os desaires ? O sonho é a planta que nasce no jardim dos vossos desejos e cresce e floresce e, tal como a aurora espera pelo sol, ele espera pela concretização para desabrochar em toda a sua pujança ! Faz do sonho a tua meta, para aquilo que não podes encontrar e torna-o na tua verdade, pois a dura realidade te deixa de todo vazio, sem nada para recordar. É melhor ter uma história que não ter coisa nenhuma.
O pão a que chamas “velhote” nasceu do acaso, já lá vão muitos anos ! Um dia um velho padeiro enganou-se nas misturas ao fabricar o seu pão. E vendo que não era a sua massa habitual quis dar-lhe uma nova feição e juntou-lhe ovos e açúcar além de um certo retoque de uma secreta adição. E perante o resultado, logo após a cozedura, ofereceu-o de presente a uma amada senhora que o achou delicioso e o repartiu com outra gente. Logo quiseram saber quem é que o fabricava e como é que se chamava.
E a senhora informou: foi um padeiro velhote que esta novidade apresentou. O nome dele não sei nem como ele chamou a este doce.
Mas então, disse uma Fada minha amiga que também estava presente: o nome do padeiro não interessa, dai ao doce um nome universal, indefinido mas curial. Disseste que foi um padeiro velhote que o inventou, pois chamai-lhe o doce do “velhote”. E o próprio padeiro adoptou o baptismo da iguaria. Portanto, assim nasceu o “velhote”.
É claro que ele transmitiu o segredo da receita aos seus descendentes que, por acaso, residiam em Valadares, e por isso vós, Valadarenses, tendes, como prioridade, a defesa da sua origem e do seu nome e a preservação da sua fama.
E a Fada dos sonhos, em jeito de despedida acrescentou: acreditas, finalmente, que vim aqui para te ajudar? Vou deixar-te e podes, em público, referir o nosso encontro.
É quase noite e tenho de me apressar, para sonhos semear nos meninos que me esperam.
E, também, é tanta a humanidade que me aguarda por mais nada poder ter, além dos sonhos que eu lhe der !
E desapareceu.
E o mesmo eu vou fazer, daqui deste lugar, porque já chega de sonhar !
António Castro Poças 2007-06-23 |